16 fevereiro 2006
  Drag Kings na Folia

... lá no Bolacha Ilustrada.
 
13 fevereiro 2006
  Uma dupla do barulho
[por Vange Leonel]
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 12/02/2006

Elas são casadas há quase duas décadas. Informalmente, já que casamento entre pessoas do mesmo sexo não é legalizado no Brasil. Mesmo assim, elas são casadas. Seus amigos solteiros costumam dizer que, se um dia casarem, querem um casamento como o delas. Os casados nelas se espelham. E todos perguntam: qual o segredo de um casamento tão firme e duradouro?

Elas dizem que não há segredo ou fórmula a ser seguida. Mas, generosamente, passam uma regrinha simples: jamais carreguem nas costas o peso da obrigação ou a expectativa da eternidade. "Nenhum amor é eterno a não ser aquele que se prolonga, indefinidamente, sabendo-se efêmero", elas dizem. Eu até usei a frase num livro que escrevi. Por essas e por outras, agradeço a elas a inspiração, a amizade e a sabedoria compartilhada.

Um dia, uma conhecida ousou dizer que ficar tanto tempo casada com a mesma pessoa só poderia ser falta de imaginação. Elas não se ofenderam com o comentário, julgando-o fruto de uma inveja tola. Mas fizeram questão de corrigir: "Engano seu, é preciso muita imaginação". Se fossem esnobes, poderiam ter citado Heráclito ("Não cruzarás o mesmo rio duas vezes, porque outras são as águas que correm nele") lembrando que o casamento não é estático nem travado de antemão: flui. Nada é monótono se existe imaginação.

Nunca vi duas pessoas tão diferentes e tão parecidas. Elas têm temperamentos quase opostos, mas concordam nos aspectos mais essenciais: na ética e no que esperam de seu amor. Porque, do amor, elas esperam só amor. Nada mais.

© Folha de S.Paulo
 
08 fevereiro 2006
  Noite Preta
li na semana passada o novo livro do Edu Giannetti, "O valor do amanhã", sobre as raízes naturais dos juros ou como a troca intertemporal é parte da natureza humana. Concordo: a coisa é atávica. "Pague hoje, usufrua amanhã" ou "usufrua hoje, pague amanhã"?

Na primeira parte do livro, Giannetti aborda a troca intertemporal sob o ponto de vista evolutivo. Para mim, darwinista diletante, o autor incorreu um pouco no erro teleológico, como no trecho: "entre guardar os recursos ´debaixo do colchão´ e aplicá-los a juros convidativos na usina conversora que é a folhagem, a árvore abraça a segunda opção". Peraí. Por mais que a simplificação aí tenha um propósito didático, não dá pra atribuir intenção à árvore. Afora essa tentação teleológica (que é comum, infelizmente, quando se fala em evolução), outra coisa me incomodou no livro: apenas citações de autores homens, como se a História do Pensamento Universal tivesse sido escrita apenas por homens. Ok, pior é que foi mesmo, pelo menos até o século 20, mas a gente tá aqui pra fazer correções de rota, certo? Como as citações ali não são apenas de pensadores ou cientistas pré-século 20 (ele cita artistas, autores, etc), penso que há um traço um tanto demasiadamente masculinista na formação do Edu, que cita apenas 2 mulheres na obra: Cecília Meirelles, com o poema "Ou isto ou aquilo" e a bioantropóloga Sarah Blaffer-Hrdy (que já citei várias vezes em minhas colunas e neste blog), citada nas notas ao final do livro. Da próxima vez que o encontrar pessoalmente, vou indicar Donna Haraway como leitura.

Ok. Feitas as ressalvas, preciso dizer que aprecio o empenho do Edu em explicar aspectos da economia para leigos (já li 2 outros livros dele, bons e gostosos de ler) e sua escrita é rica e elegante. Vou terminar o post com um trecho extraído de "O valor do amanhã", torcendo para que o "Homem moderno" de Giannetti encontre um dia o "Cyborg-FemaleMan-pós-moderno" de Haraway:

"O fato espantoso é que, apesar de toda a pretensa valorização da razão fria e de uma postura de completa objetividade diante das coisas, o ideal moderno é viver sob o mais metódico e fantasioso escapismo. É viver como se a morte não nos dissesse respeito. No ambiente moderno, secularizado e tecnicamente aparelhado, a experiência do "morrer antes de morrer" - elaboração subjetiva e madura da inevitabilidade da própria morte - foi estigmatizada como uma espécie de anomalia ou morbidez a ser banida do campo de atenção consciente. Na caverna high-tech do alheamento, sob o bombardeio de estímulos da grande metrópole, a sombra do efêmero ofusca a luz do mistério. A lâmpada elétrica apaga o céu noturno e o entretenimento eletrônico embala a morte-em-vida em que a consciência da morte adormece. O homem moderno cruza velozmente os ares, mas não mira o cosmos. Ele acumula anos adicionais de vida, mas evita pensar na eternidade - terror soberano -, que o apavora. Sendo morte e sua sombra os principais ´defeitos´ da vida - todo o resto, supostamente, a técnica e a razão remedeiam -, tudo se passa como se bastasse ignorá-las para que elas também nos ignorassem." © Eduardo Giannetti, em "O valor do amanhã"
 
03 fevereiro 2006
  Kanzi

Kanzi é um chimpanzé bonobo nascido em 23 de outubro de 1980, em Atlanta, Estados Unidos, no centro Yerkes, uma espécie de campo de concentração de inspiração menghélica para experiências com primatas não-humanos. Quando completou 6 meses de idade mudou-se com sua mãe adotiva (Matata) para o Language Research Center, um centro um pouco mais amigável, com experimentos menos cabulosos.

Ali, a doutora Sue Savage-Rumbaugh iniciou um experimento linguístico com Matata que consistia em relacionar o som de certas palavras a imagens desenhadas num tabuleiro para testar sua capacidade cognitiva. Mal imaginava a doutora que Kanzi, ali ao lado de Matata, quietinho, foi aprendendo tudo sem que ninguém o ensinasse. Logo Rumbaugh percebeu a enorme habilidade de Kanzi para relacionar as palavras que escutava aos símbolos no tabuleiro. Com tempo e treinamento, Kanzi desenvolveu uma extraordinária capacidade lingüística, dominando milhares de palavras e tornando-se capaz de formar frases inteiras, apenas apontando, sequëncialmente, os símbolos ali desenhados.

O experimento demonstrou que, se tivessem aparato vocal para desenvolver a fala (suas laringes não são capazes de vocalizar a variedade de sons da laringe humana), os chimpanzés bonobos poderiam perfeitamente balbuciar sentenças lógicas e compreensíveis, já que seus cérebros são capazes de formular sintaxes. Hoje, a dra. Sue Rumbaugh ensina 8 macacos superdotados em seu Great Apes Trust of Iowa, entre eles Panbanisha, irmã de Kanzi, que toca teclados e chegou a gravar com Paul McCartney e Peter Gabriel. Tá?

@

brinque você mesmo com um Lexigrama Interativo, disponibilizado pelo Great Apes Trust.
 
01 fevereiro 2006
  Pé Grande
© Robert Crumb
... lá no Bolacha Ilustrada desta semana.
 

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Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

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