18 Agosto 2009
  Um novo homem
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 02/08/2009

por Vange Leonel

Cúmulo da ironia, a filha de um ícone da hiperfeminilidade resolveu mudar de sexo. Sim, Chaz Bono, filha da cantora Cher, iniciou seu processo de transição para o sexo masculino e já toma testosterona. Ainda não sabe quando fará a retirada dos seios.

Batizada Chastity (Castidade) e gerada quando Cher fazia uma bissexual num filme dos anos 1960, parece que o destino reservou uma trajetória sui generis para a garota, que, diz, sempre se sentiu um garoto.

Chaz nasceu sob os holofotes, filha única da dupla pop Sonny & Cher. Arriscou-se como cantora, mas foi como ativista lésbica e diretora do GLAAD (associação contra a difamação de gays e lésbicas na mídia) que começou a ter vida pública própria. Nessa época, de cabelos longos e maquiagem leve, tinha aparência feminina.

Agora Chaz tenta equilibrar efeitos colaterais diversos: os do tratamento hormonal, da consciência ativista, da sinceridade radical e da coragem de se expor. Ele (vou começar a usar o masculino) foi convidado por TVs para documentar sua transição, mas quer pensar sobre o assunto. Só fará se for algo educativo, para explicar coisas como identidade de gênero e redesignação sexual. Por outro lado, disse que precisa de privacidade nesse momento e não dá entrevistas sobre o assunto.

É uma sinuca de bico. Entre prestar serviço de esclarecimento e preservar a intimidade, a evasão de privacidade parece inevitável.

© Folha de S.Paulo

ainda Chastity, com Mommy Cher...

...e agora, Chaz Bono.

 
17 Agosto 2009
  Fantasia lésbica
coluna GLS publicada na revista da Folha em 16 de agosto de 2009
por Vange Leonel


Uma famosa marca de sapatos femininos (até parece piada pronta) acaba de lançar uma campanha publicitária com as atrizes Cleo Pires e Juliana Paes em fotos provocantes sugerindo uma atração lésbica.

Se as personagens das duas vivem às turras na novela "Caminho das Índias", nas fotos à beira de uma piscina, vestidas para matar, elas parecem bem mais que amigas em poses sensuais com acento homoerótico.

Há tempos se sabe que homens heterossexuais fantasiam com lésbicas lindas fazendo sexo entre si só para satisfazê-los. Afinal, vídeos adultos e revistas masculinas vivem explorando o fetiche do macho hetero por mulheres na cama com outras mulheres.

A novidade dessa nova campanha é usar a fantasia lésbica para atrair não os homens, mas as mulheres. Talvez os criadores da peça publicitária queiram apenas chamar atenção. Ou estão sugerindo que é cada vez mais evidente o desejo secreto que muitas heterossexuais têm por uma experiência lésbica, seja ela real, virtual ou imaginada.

Curioso é notar que mulheres notoriamente heterossexuais se sintam à vontade para brincar com a homossexualidade, enquanto lésbicas famosas preferem ficar dentro do armário. Por quê? Hipocrisia ou medo de homofobia? Parece que hoje em dia é mais fácil fazer um papel do que ser alguém real.


© Folha de S.Paulo

foto da campanha

[clique aqui pra ver o making of no youtube]

 
04 Agosto 2009
  Meu Velho e o Mar
como bem lembrou minha irmã Cris, hoje faz 25 anos que nosso pai se foi. Vou postar então uma coluna que escrevi já faz algum tempo na Revista da Folha em homenagem à meu velho. A foto que ilustra este post foi tirada em Peruíbe e mostra meu pai e as três filhas (Cris, eu no carrinho e Lolô - meu irmão Otávio ainda não havia nascido).



Meu Velho e o Mar


[por Vange Leonel]

Meu pai era filho de italianos imigrantes que chegaram ao porto de Santos e resolveram não subir a serra. Caiçara, criado na praia, caçula temporão, último de 7 irmãos, cresceu com seus olhos azuis fixos no horizonte, no oceano. De tanto olhar os barcos e navios chegando e partindo do cais, cursou engenharia naval e passou a vida projetando petroleiros. Mesmo depois de casar com minha mãe, quando veio morar na capital paulista, jamais conseguiu ficar muito tempo longe do mar.

Os leitores e leitoras me desculpem o tom tão pessoal, mas é inevitável lembrar do meu velho nessa época do ano. Hoje é dia dos pais e foi também no começo de um mês de agosto, há 18 anos, que meu pai morreu. Olho em volta e as revistas, jornais e tevês aproveitam a efeméride para estampar em suas páginas e telinha artigos e matérias sobre pais e seus filhos e eu fico com saudades.

Sinto falta daquele cara meio fechado, introspectivo, que me presenteou com um livro de Oscar Wilde depois que contei que era lésbica. Sinto muita pena que ele não tenha conhecido a minha cara-metade, minha mulher, pois tenho certeza que os dois se dariam muito bem (curiosamente, o esporte preferido da minha namorada parece ser o mesmo que meu velho gostava: me provocar com piadinhas espirituosas!).

Mas dou graças aos céus por ter tido tempo de mostrar a ele quem eu realmente era. Fico agradecida por não ter sido necessário engana-lo, por ter tido a chance de ser absolutamente honesta e por ter obtido, através de sua aceitação de minha homossexualidade, a prova definitiva de seu amor incondicional por mim.

Hoje, toda vez que me aproximo do oceano, paro e fixo meus olhos no horizonte e penso que ele já deve ter pousado seu olhar naquela faixa de mar inúmeras vezes. Imagino que ele observava as embarcações, indo e vindo, e que sabia, no fundo, que o que se leva dessa vida é a vida que se leva. Ainda bem que fomos amigos. E isso não aconteceu por acaso: aconteceu porque fizemos um esforço e não nos deixamos ficar à deriva. A tempo, acendemos um farol e construímos um porto para onde retornar os barcos.


 
27 Julho 2009
  Bat-eleição
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 19/07/2009

por Vange Leonel


Não foi desta vez. Única candidata abertamente lésbica a concorrer à prefeitura de Washington DC, Batwoman não conseguiu votos suficientes para se eleger. Venceu a Mulher Maravilha, que de certa maneira é simpatizante, pois nasceu amazona, cercada de mulheres.

A eleição virtual, que teve oito candidatos super-heróis, ocorreu em 11 de julho como exercício de uma oficina promovida pelo NOI (New Organizing Institute). Pode parecer brincadeira, mas o projeto é coisa séria.

O NOI treina agentes de campanhas eleitorais no uso de novas tecnologias e mídias. E-mails, sites de relacionamento, Twitter e ações virais: tudo é campo fértil para a disseminação de ideias e a popularização de candidatos.

O poder das novas mídias em campanhas políticas ficou evidente após a eleição de Barack Obama. Pioneiro no uso da internet como instrumento de trabalho, o time de campanha de Obama manteve eleitores ligados, apaixonados e fazendo doações.

Segundo Arianna Huffington, do site de notícias Huffington Post, "se não fosse a internet, Obama não teria sido eleito. Não teria sido nem candidato democrata".

No Brasil, a atuação de políticos em comunidades eletrônicas ainda é tímida. Mas 2010 está aí e posso apostar que os marqueteiros usarão e abusarão do Twitter, Orkut e de outras novas mídias para atingir o eleitor. Vai ser notícia em todo jornal e revista. Só duvido que apareça candidata lésbica como Batwoman.

© Folha de S.Paulo

 
10 Julho 2009
  Pantera de Verdade
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 05/07/2009

por Vange Leonel


Não havia festa que me tirasse de casa nas noites de sexta-feira quando "As Panteras" ia ao ar. Eu era fã do trio de belas ex-policiais que prestavam serviços particulares de investigação disfarçadas de presidiárias, pilotos de corridas, modelos fotográficos e até mesmo infiltradas na indústria de filmes pornô.

Em pouco tempo, a série se tornou a campeã de audiência nos Estados Unidos, e a atriz Farrah Fawcett, morta recentemente, se transformou em símbolo sexual para os homens e em ícone para as mulheres. Seu penteado foi imitado à exaustão e seu famoso pôster de maiô vermelho vendeu 12 milhões de cópias, recorde jamais batido.

Eu, adolescente que se descobria lésbica, tanto queria ter como ser Farrah. Mas, para além da beleza das moças, o que mais me encantava ali eram a força e a amizade do trio: elas dirigiam carrões, dominavam artes marciais e arriscavam a vida para salvar as companheiras.

Essa aliança feminina era algo raro de se ver na TV. Por mais paradoxal que pareça, a série que mostrava mulheres lutando sem desmanchar o penteado plantou uma semente de feminismo em mim.

Na vida real, enfrentando um câncer anal, Farrah Fawcett contou com a ajuda das ex-panteras Kate Jackson e Jaclyn Smith, sobreviventes de câncer de mama e presenças constantes em sua casa. Amizade de verdade. Essas bonecas não são de plástico: são de carne, osso e garra.

PS: Farrah deixou parte de sua fortuna para ajudar mulheres vítimas da violência doméstica.

© Folha de S.Paulo

PS2: hj às 21 hs o GNT exibe o documentário produzido pela própria Farrah Fawcett expondo sua luta contra o cãncer. Será reprisado durante a semana. Confira os horários no site do canal.

 
07 Maio 2009
  Ninio, o elefante gay
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 26/04/2009

por Vange Leonel


Um elefante incomoda muita gente? Dois elefantes juntos e enamorados incomodam muito mais! Que o diga Michal Grzes, deputado polonês que andou reclamando do elefante gay abrigado no zoológico de Ponzan.

Grzes não se conforma: os contribuintes gastaram 37 milhões de zlotys (cerca de R$ 24 milhões) para construir o maior cercado de elefantes da Europa, e o que receberam em troca? Ninio, um elefante que, segundo o deputado, "prefere machos em vez de fêmeas" e não irá encher o cercado de filhotes.

O político está colocando muita pressão em cima de Ninio. Os tratadores do zoológico explicam que o elefante tem apenas dez anos de idade, é muito jovem para procriar e ainda não definiu sua orientação sexual.

Mesmo os paquidermes que vivem nas savanas africanas costumam se envolver afetiva e sexualmente com outros machos. Bruce Bagemihl, zoólogo especialista em homossexualidade animal, diz que entre elefantes africanos é comum que machos formem relações homossexuais duradouras. Muitos só irão copular com fêmeas depois dos 35 anos, "20 anos depois de atingirem a maturidade sexual".

Se a preocupação do deputado polonês é com o retorno do investimento, ele deveria se tranquilizar. Ninio pode (ou não) procriar daqui a 25 anos, mas já é um sucesso. O número de visitantes no zoológico de Ponzan aumentou nas últimas semanas: todos querem ver Ninio, o famoso elefante gay que saiu do armário.

© Folha de S.Paulo

Marcadores:

 
05 Maio 2009
  Tamanho grande
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 12/04/2009

por Vange Leonel


Modelo perfeita é aquela tão magra que funciona como um cabide, revelando somente a beleza da roupa que veste, certo? Nem sempre.

Um dos novos ícones da música pop alternativa, Beth Ditto (vocalista do The Gossip que se declara "lésbica, gorda e feminista"), acaba de ser contratada pela confecção inglesa Evans para criar sua própria linha "plus-size". Contrariando a regra de que gordas devem usar roupas discretas em tons pálidos, Ditto promete levar às lojas o estilo espalhafatoso que a consagrou nos palcos.

Ela marca presença e atrai olhares de fashionistas nos muitos desfiles de moda a que comparece. Karl Lagerfeld ficou impressionado com a energia da cantora após assistir a seu show durante a recente Paris Fashion Week: "Ela é o oposto de tudo o que é moda hoje -uma beleza extraordinária".

A editora de moda do jornal inglês "The Times", Lisa Armstrong, acredita que o sucesso de Ditto como ícone fashion se explica porque "a moda gosta de exageros". "Pode-se até argumentar que Ditto não é melhor exemplo de saúde que as modelos magérrimas’’, continua Armstrong, "mas não se pode questionar sua autoconfiança".

De fato, Beth Ditto tem uma confiança maior que sua cintura roliça. Autoestima, aliás, forjada no seio de uma família pobre e amorosa e depois fortalecida pelas lições preciosas do movimento Riot Grrrls, que nos anos 90 uniu punk rock e feminismo. Viva as gordinhas!

© Folha de S.Paulo


Ditto no show da Paris Fashion Week dando um mosh!!!

 
14 Abril 2009
  Na Faixa
minha parceira Cilmara Bedaque acaba de estrear o blog "Na Faixa" lá no portal da MTV, com "pílulas e dicas de música, idéias e sentidos colhidos no ar". Recomendo!! No primeiro post, uma dupla de meninas que eu gosto muito, o Client.

 
06 Abril 2009
  Amor ou Sabedoria?
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 29/03/2009

por Vange Leonel


Uma de minhas personagens favoritas, Evangeline Musset é a heroína lésbica do obscuro "Almanaque das Senhoras", escrito, em 1928, por Djuna Barnes. Ao completar 50 anos, ela decide transmitir sua sabedoria às outras mulheres: "Nunca queira nada que você não tenha, nunca tenha nada que não permaneça e não deixe nada sobrar".

Assim, Musset manda tocar todos os sinos da Galileia e pergunta às garotas que encontra pelo caminho: "O que é o que é? Tão manco como Ganso, parado como Pausa, rápido como Relógio, molhado como Córrego, mole como rabo de Rato, duro como Coração, salgado como toucinho, amargo como Bile, doce como entrada, ácido como Cidra passada, prezado como Querida e vil como Furúnculo; que está sempre presente ainda que nunca à Vista, tão leve como Lenço e escuro como Corvo?". Musset revela: "É o Amor".

E continua: "O que é o que é? Tão mansa como Teta de Vaca, forte como Peão, quieta como Tostão, tão segura quanto pense-o-que-quiser ou certa-está-você? Sabedoria. E qual deles você vai querer?"

Amor ou sabedoria? As garotas não respondem, fazem que não ouvem e seguem suas vidas. Desolada com as jovens de ouvidos moucos, Musset então pergunta a uma senhora de idade se há mais o que aprender. A velha responde: "Aos 60 você já está dez Anos cansada de sua Sabedoria". Rapidamente, Musset dá meia-volta e reconsidera a ordem para que toquem os sinos.

© Folha de S.Paulo

Marcadores:

 
  Caçada Virtual
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 15/03/2009

por Vange Leonel



O Xbox LIVE é um serviço que permite a interação em rede entre jogadores do console Xbox. Ao se cadastrar no Live, o usuário cria um perfil e pode enfrentar outros jogadores virtualmente ou formar times para jogar.

Há poucos dias, uma jogadora lésbica foi banida do Live por infringir a regra que proíbe os usuários de escrever nos perfis conteúdos de cunho sexual, racista ou que possam ofender outros jogadores. Como a jogadora declarava-se lésbica (cunho "sexual") e isso ofendeu outros jogadores, foi cortada da comunidade.

A história, porém é um pouco mais complicada. A jogadora era perseguida virtualmente por outros usuários. "Eles me seguiam por vários jogos, mapas e cenários, convocando outros jogadores para se voltarem contra mim porque não queriam conviver com coisa ruim." Ou seja: a regra puniu a vítima e protegeu seus detratores.

Ciente da dificuldade que é legislar sobre uma minissociedade virtual, a Microsoft, dona do Live, pediu a ajuda ao Glaad (organização gay e lésbica contra a difamação) para elaborar um sistema mais eficiente que iniba esse tipo de perseguição.

Não é tarefa fácil. Sites de relacionamentos e redes de jogos estão formando uma geração de covardes. Protegidos pelo anonimato e pela ilusória imaterialidade do mundo virtual, eles ofendem, perseguem, xingam e depois desligam o computador como se nada tivesse acontecido. Sem consequências.

© Folha de S.Paulo

Marcadores:

 

Minha foto
Nome: Vange Leonel
Local: São Paulo, SP, Brazil

Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

mais informações:
BLOG Home
MySpace
Twitter




ARQUIVOS
Novembro 2005 / Dezembro 2005 / Janeiro 2006 / Fevereiro 2006 / Março 2006 / Abril 2006 / Junho 2006 / Julho 2006 / Agosto 2006 / Setembro 2006 / Outubro 2006 / Novembro 2006 / Dezembro 2006 / Janeiro 2007 / Fevereiro 2007 / Março 2007 / Abril 2007 / Maio 2007 / Junho 2007 / Julho 2007 / Agosto 2007 / Setembro 2007 / Outubro 2007 / Novembro 2007 / Dezembro 2007 / Janeiro 2008 / Fevereiro 2008 / Março 2008 / Abril 2008 / Maio 2008 / Junho 2008 / Julho 2008 / Agosto 2008 / Setembro 2008 / Outubro 2008 / Novembro 2008 / Dezembro 2008 / Janeiro 2009 / Fevereiro 2009 / Abril 2009 / Maio 2009 / Julho 2009 / Agosto 2009 /






LIVROS
Balada para as Meninas Perdidas
Grrrls - Garotas Iradas
As Sereias da Rive Gauche




MEMÓRIAS DE UMA MULHER MACACA
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23



CDs
Vermelho
Vange
NAU



TEATRO
As Sereias da Rive Gauche
Joana Evangelista



WEB
Mix Brasil
MOJO: Atrás do Porto...








BLOGS FAVORITOS
Cilmara
VAE
Marcia
Elisa
Pedro






Creative Commons License
Reproduçõees do conteúdo deste blog só serão permitidas se estiverem de acordo com as regras estabelecidas pela Creative Commons Attribution-NonCommercial 2.5 License.

Os textos da Coluna GLS, têm copyright da Folha de S.Paulo e só poderão ser reproduzidos sob permissão da empresa.




Powered by Blogger