07 fevereiro 2011
  Jane Bowles e Cherifa
Jane Bowles e Cherifa, 1967, Tanger

Em tempos de polarização entre ocidente e oriente vale a pena lembrar de um curioso caso de amor entre duas mulheres durante os anos 50 e 60. O romance entre a escritora americana Jane Bowles e a marroquina Cherifa foi cercado de assombro, suspeitas e desconfianças de todos que as conheciam, árabes ou ocidentais. O motivo para tanta intriga foi simplesmente o enorme fosso entre duas culturas tão distantes. E, no entanto, o amor brotou entre as duas mulheres, a despeito da torcida contrária de ambos os lados.

O ano é 1947 e Jane e Paul Bowles, um casal muito moderno de escritores americanos, chega para uma longa temporada em Tânger, no Marrocos. Entediado da vida na América, Paul vivia buscando aventuras em países exóticos. Nem sempre Jane o acompanhava e nem mesmo Paul esperava que ela o fizesse - afinal, aquele não era um casamento típico. Para completar, Paul era gay, Jane era lésbica e o casamento, pasmem, não era de fachada - eles se amavam verdadeiramente.

Quando chegaram ao Marrocos - para morar definitivamente - o sentimento nacionalista da população começava a tomar proporções grandiosas, inspirado pela crescente popularidade da Liga Árabe. O país, no entanto, continuava sob tutela da França e o ambiente era aparentemente calmo.

Um dia, durante uma visita ao mercado da cidade, Jane ficou fascinada com uma vendedora de uma barraca de grãos - Cherifa. Ao contrário de Paul, que conseguia namoradinhos árabes em cada esquina, Jane logo descobriu a tarefa dificílima de penetrar no mundo das mulheres árabes, sempre escondidas atrás dos véus e dos muros dos haréns. Mas a americana gostava de aventuras e era persistente. Logo ficou amiga de Cherifa, mas percebeu que não podia convidá-la para ir ao seu quarto de hotel e nem seria convidada para conhecer a casa de Cherifa em Medina. Tudo isso porque, sendo muçulmana, Cherifa precisava da permissão de um homem de sua família para sair de casa ou para convidar qualquer um a entrar em sua própria casa. Convidar Jane, então, era uma heresia! Primeiro, tratava-se de uma "inimiga" européia. Não adiantava Jane explicar que era americana - para eles, ocidental era tudo a mesma coisa. Em segundo lugar, Jane era uma "nazarena", como os marroquinos costumavam chamar os cristãos em geral. Pouco facilitava Jane dizer que era judia - ela era muito diferente dos judeus de Tânger, pobres e de pele escura, que moravam em Medina (cidade velha) e com os quais os marroquinos tinham familiaridade.

Lembrem-se: o estado de Israel ainda não existia e judeus e árabes não eram inimigos declarados ainda. Mesmo diante de tantos problemas e mal-entendidos, o amor e a atração falaram mais alto: Jane e Cherifa começaram a namorar. Pensando em tornar tudo mais fácil, Jane saiu do hotel e alugou uma casa em Medina para que Cherifa pudesse freqüentá-la. Mesmo assim as coisas se complicaram. Cherifa só aparecia quando Jane lhe dava algum presente. A escritora americana logo entrou em crise com a situação: ora Charifa lhe pedia uma raquete de tênis, ora um par de sapatos e chegou até a pedir um táxi para trabalhar como motorista em Tânger!

Não demorou muito para os amigos americanos dos Bowles desconfiarem da marroquina: ela era uma interesseira que não dava a mínima para o amor de Jane. Seria verdade? Ou apenas outro mal-entendido? O que os amigos americanos não percebiam é que os familiares de Cherifa também a pressionavam do outro lado: Cherifa precisava tirar algum lucro material da relação.

Segundo o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, o marido deve sustentar a sua mulher e, portanto, Jane deveria sustentar Cherifa! Não que os familiares de Cherifa aprovassem ou reconhecessem a verdadeira natureza de sua relação com Jane mas, se a marroquina dedicava-se tanto à americana, a ponto de praticamente morar na mesma casa, era natural que existisse uma compensação financeira. Mas não adiantava Jane explicar. Os amigos dos Bowles e os familiares de Cherifa achavam aquela relação muito estranha.

A situação chegou ao ápice dez anos depois quando Jane Bowles sofreu um sério derrame que deixou sua capacidade de ler e escrever comprometida. Entre a comunidade americana em Tânger o boato era que Cherifa havia envenenado a sua amante - até mesmo Paul partilhava dessa suspeita. O cerco ao redor de Cherifa aumentou quando um criado achou pequenos patuás espalhados pela casa. Cherifa disse que sim, fora ela quem fizera os patuás, mas eram apenas uma mandinga para "pegar amor". Ninguém acreditou. Americanos que sempre ridicularizaram os hábitos e costumes primitivos dos marroquinos agora acreditavam na magia negra supostamente perpetrada por Cherifa. Eles a acusavam de ter tentado matar Jane e se esqueciam que a escritora americana era uma hipertensa que não tomava remédios, já sofrera alguns ataques e que bebia uma garrafa de gim por dia, acompanhada de 3 maços de cigarros.

Recuperada após vários tratamentos na América e Europa (mas ainda com afasia) Jane voltou a Tânger para morar com Cherifa. Coincidentemente, seu regresso foi logo após o Marrocos ter declarado sua independência, libertando-se da tutela européia depois de coroar o rei Mohammad V. Desta vez Jane encontrou uma Cherifa de cabeça erguida, talvez mais orgulhosa pela autonomia de seu país. Jane percebeu esta mudança quando, durante um pileque num bar, começou a distribuir dinheiro e as roupas que usava para quem passasse a sua frente. Cherifa que, como sempre, estava ao seu lado não aceitou nem um tostão. Desta vez recusou-se a receber qualquer coisa de Jane. Mas nunca a abandonou. Cuidou da amiga/amante americana enquanto Paul, o marido de Jane, viajava pelo mundo, para outros países mais exóticos, mais distantes e mais ao oriente - mais para lá ainda de Marrakesh.

Jane Bowles morreu em 1973, sozinha, numa clínica em Málaga, Espanha, depois de ser internada pelo marido. Paul morreu há poucos anos atrás. Quanto a Cherifa, ninguém sabe se está viva ou morta.

por Vange Leonel, publicado no MixBrasil circa 2002


 
06 fevereiro 2011
  green porno
série de super curtas produzida e estrelada por Isabella Rossellinni hospedada no canal do Sundance no YouTube. Este episódio da arca de noé é bem educativo.

 
03 fevereiro 2011
  Maria Schneider no Rio
trecho do livro "Éramos Apenas Paulistas", de Francisco Ramalho Jr (coleção Aplauso - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2009)


"Este filme ["Das Tripas Coração" de Ana Carolina] inclusive tem uma história incrível que pouca gente sabe: a atriz principal era para ter sido Maria Schneider, estrela internacional de O Último Tango em Paris. Ela veio ao Brasil, mas se encontrava numa decadência deplorável. Estava tudo acertado para ela fazer o filme, quando numa determinada noite, após fazer um estrago horrível no seu quarto no Hotel Copacabana Palace (onde chegou até a quebrar o vaso sanitário além de destruir cortinas), ela simplesmente desapareceu. Sumiu completamente. Procuramos em todos os lugares, até em Cabo Frio, quando de repente Ana teve a ideia de telefonar para Paris, na possibilidade dela haver regressado. E não deu outra. Telefonamos, ela atendeu ao telefone em Paris, como se nada tivesse acontecido, e ficou tudo por isso mesmo. Saímos feito doidos atrás de uma atriz que pudesse substituí-la em tempo recorde, e quem salvou nossa pele foi a admirável Dina Sfat."


Maria Schneider

íntegra do livro aqui

 

Minha foto
Nome:
Local: São Paulo, SP, Brazil

Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

mais informações:
BLOG Home
MySpace
Twitter


Vange Leonel

Criar seu atalho







ARQUIVOS
Novembro 2005 / Dezembro 2005 / Janeiro 2006 / Fevereiro 2006 / Março 2006 / Abril 2006 / Junho 2006 / Julho 2006 / Agosto 2006 / Setembro 2006 / Outubro 2006 / Novembro 2006 / Dezembro 2006 / Janeiro 2007 / Fevereiro 2007 / Março 2007 / Abril 2007 / Maio 2007 / Junho 2007 / Julho 2007 / Agosto 2007 / Setembro 2007 / Outubro 2007 / Novembro 2007 / Dezembro 2007 / Janeiro 2008 / Fevereiro 2008 / Março 2008 / Abril 2008 / Maio 2008 / Junho 2008 / Julho 2008 / Agosto 2008 / Setembro 2008 / Outubro 2008 / Novembro 2008 / Dezembro 2008 / Janeiro 2009 / Fevereiro 2009 / Abril 2009 / Maio 2009 / Julho 2009 / Agosto 2009 / Fevereiro 2010 / Março 2010 / Abril 2010 / Setembro 2010 / Outubro 2010 / Novembro 2010 / Fevereiro 2011 /






LIVROS
Balada para as Meninas Perdidas
Grrrls - Garotas Iradas
As Sereias da Rive Gauche




MEMÓRIAS DE UMA MULHER MACACA
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23



CDs
Vermelho
Vange
NAU



TEATRO
As Sereias da Rive Gauche
Joana Evangelista



WEB
Mix Brasil
MOJO: Atrás do Porto...





Radio Liberdade
















BLOGS FAVORITOS
Cilmara
VAE
Marcia
Elisa
Pedro






Creative Commons License
Reproduçõees do conteúdo deste blog só serão permitidas se estiverem de acordo com as regras estabelecidas pela Creative Commons Attribution-NonCommercial 2.5 License.

Os textos da Coluna GLS, têm copyright da Folha de S.Paulo e só poderão ser reproduzidos sob permissão da empresa.




Powered by Blogger