08 fevereiro 2006
  Noite Preta
li na semana passada o novo livro do Edu Giannetti, "O valor do amanhã", sobre as raízes naturais dos juros ou como a troca intertemporal é parte da natureza humana. Concordo: a coisa é atávica. "Pague hoje, usufrua amanhã" ou "usufrua hoje, pague amanhã"?

Na primeira parte do livro, Giannetti aborda a troca intertemporal sob o ponto de vista evolutivo. Para mim, darwinista diletante, o autor incorreu um pouco no erro teleológico, como no trecho: "entre guardar os recursos ´debaixo do colchão´ e aplicá-los a juros convidativos na usina conversora que é a folhagem, a árvore abraça a segunda opção". Peraí. Por mais que a simplificação aí tenha um propósito didático, não dá pra atribuir intenção à árvore. Afora essa tentação teleológica (que é comum, infelizmente, quando se fala em evolução), outra coisa me incomodou no livro: apenas citações de autores homens, como se a História do Pensamento Universal tivesse sido escrita apenas por homens. Ok, pior é que foi mesmo, pelo menos até o século 20, mas a gente tá aqui pra fazer correções de rota, certo? Como as citações ali não são apenas de pensadores ou cientistas pré-século 20 (ele cita artistas, autores, etc), penso que há um traço um tanto demasiadamente masculinista na formação do Edu, que cita apenas 2 mulheres na obra: Cecília Meirelles, com o poema "Ou isto ou aquilo" e a bioantropóloga Sarah Blaffer-Hrdy (que já citei várias vezes em minhas colunas e neste blog), citada nas notas ao final do livro. Da próxima vez que o encontrar pessoalmente, vou indicar Donna Haraway como leitura.

Ok. Feitas as ressalvas, preciso dizer que aprecio o empenho do Edu em explicar aspectos da economia para leigos (já li 2 outros livros dele, bons e gostosos de ler) e sua escrita é rica e elegante. Vou terminar o post com um trecho extraído de "O valor do amanhã", torcendo para que o "Homem moderno" de Giannetti encontre um dia o "Cyborg-FemaleMan-pós-moderno" de Haraway:

"O fato espantoso é que, apesar de toda a pretensa valorização da razão fria e de uma postura de completa objetividade diante das coisas, o ideal moderno é viver sob o mais metódico e fantasioso escapismo. É viver como se a morte não nos dissesse respeito. No ambiente moderno, secularizado e tecnicamente aparelhado, a experiência do "morrer antes de morrer" - elaboração subjetiva e madura da inevitabilidade da própria morte - foi estigmatizada como uma espécie de anomalia ou morbidez a ser banida do campo de atenção consciente. Na caverna high-tech do alheamento, sob o bombardeio de estímulos da grande metrópole, a sombra do efêmero ofusca a luz do mistério. A lâmpada elétrica apaga o céu noturno e o entretenimento eletrônico embala a morte-em-vida em que a consciência da morte adormece. O homem moderno cruza velozmente os ares, mas não mira o cosmos. Ele acumula anos adicionais de vida, mas evita pensar na eternidade - terror soberano -, que o apavora. Sendo morte e sua sombra os principais ´defeitos´ da vida - todo o resto, supostamente, a técnica e a razão remedeiam -, tudo se passa como se bastasse ignorá-las para que elas também nos ignorassem." © Eduardo Giannetti, em "O valor do amanhã"
 
Comments:
putz, bateu fundo esse trecho da donna haraway, vange (acho que você sabe disso, né?).

quero ouvir ela falar sobre como fazemos pra viver a morte em vida com mais alegria que melancolia... ela fala?!

ai, esse edu, né? tão crescido e inteligente e ainda não pôs o nariz pra fora do clube do bolinha?
 
Pedro, mas o trecho é do livro do Edu!! (será que eu deixei o lance confuso? vou colocar a autoria no final do trecho, pra deixar claro então...) De qualquer maneira, nesse trecho do Edu eu senti um lampejo de desejo por uma fusão potente, para além das dicotomias. A Donna Haraway propõe fusões potentes como artifício pra saltar fora dessas dicotomias. Estou agora lendo um livro dela. Em breve (se conseguir traduzir satisfatoriamente) vou colocar uns trechos aqui...
 
ah, e o Edu é super fofo e nada machista. O foda é a formação acadêmica, que sempre puxa pra esse lado mais clube-do-bolinha mesmo...
 
aaaaaah! troquei todas as bolas! ato cyberfalho, hahaha. hum, será que eu gostaria mais se fosse da donna? não, tá bom, reli e continuei gostando, pronto...
 
eu também gosto, Pedro, por isso transcrevi o trecho aqui. Aliás, como disse, o livro é bom e bem escrito. Minha crítica (e que não tira o valor do livro) se baseia na sensação de que falta ao Edu uma aproximação mais pós-modernista, ou meta-modernista. Tipo, para um pós-moderno a "verdade" não está lá fora esperando para ser descoberta e nenhum observador é neutro. A realidade é texto, o observador muda o observado que muda o observador, as narrativas são muitas, não há "fato" sem contexto e nenhum narrador é imparcial ou inocente.

Quer sentir a pegada da Donna? Então vou te transcrever um trecho do livro dela que estou lendo agora, chamado "Modest_Witness@Second_Milennium.FemaleMan©_Meets_OncoMouse(TM)":

Donna Haraway: "There´s no way to rationality - to actually existing worlds - outside stories, not for our species, anyway. (...) We might profitably learn to doubt our fears and certanties of disasters as much as our dreams of progress. We might learn to live without the bracing discourses of salvation history. We exist in a sea of powerful stories: they are the condition of finite rationality and personal and collective life histories. There is no way out of stories, but no matter what the One-Eyed-Father says, there are many possibles structures, not to mention contents, of narration. Changing the stories, in both material and semiotic senses, is a modest intervention worth making".
 
sensacional!
"One-Eyed-Father", hahahahaha!
 
gente, vange, é simplesmente a coisa mais inteligentemente subversiva que já li na vida, sem exageros.

é genial, genial. ai desculpa, mas vou querer emprestado, nem que seja para xerocar.

por falar nisso, to te devolvendo o livro e os CDs hj de noitão, na sua casa, ou amanhã, sábado de manhã, ok? já separei tudo e tá no meu carro. bjão.
 
Gostei do trecho do livro que indica. As pessoas vivem cada vez mais alheadas do real, vivendo vidas insignificantes, fúteis e escondem a cabeça na areia em relação à temática da morte. Quando ela afecta alguém mt próximo ou se aproxima então o mundo deles desaba...eu acho que a morte é algo para o qual se deve procurar constantemente respostas racionais, credíveis, encarando-a com seriedade e estudo, como mais uma etapa deste percurso que não se sabe bem onde leva...aliás o mistério da existência todo ele é impressionante e é infantil demais alhearmo-nos dele. Quanto ao facto do autor só escolher outros homens para se basear é pena, pois isso limita-o mt e ele até parece ter uma escrita interessante.
Black Bird
 
na fac de letras tive uma professora de literatura que, na sua aula, decidiu abordar apenas livros escritos por mulheres. segundo ela, aprenderíamos o suficiente sobre escritores homens nas outras aulas. todos os homens da classe se retiraram da sala, sob a alegação de que eram contra toda a forma de preconceito, que isso era radicalismo, feministas são mal-comidas e a culpa não era deles.
Conclusão:
a frases dadas não se olham os dentes.
a história está cheia de pequenas preguiças.
isso é problema de outro. mas outro é um ser fictício.
 
Márcia, comece pelo "Cyborg Manifesto", que tá disponível na rede. Mas prepare-se, que é bem complexo. Eu ainda leio e releio, tentando entender mais e mais:

Cyborg Manifesto by Donna Haraway
http://www.stanford.edu/dept/HPS/Haraway/CyborgManifesto.html

BBird, sim, a falta das não-citadas "outras leituras" limita bastante o livro.

Cháchá, adorei esse episódio da faculdade! Aliás, acabei de me tocar que enquanto a Simone de Beauvoir estruturava todo seu pensamento feminista problematizando a eterna posição da mulher como o "outro" do homem, o maridão Sartre dizia que "o inferno são os outros". Muita gente pensa nessa frase sartreana como um chiste, um convite à solidão, mas ela é um chamado torto para conhecer, conviver e entender o "outro", mesmo que o "outro" incomode e pareça um inferno. Tem gente que tem essa preguiça medrosa de descer ao inferno, hahaha...
 
é, eu acho que a frase "o inferno são os outros" é uma paródia crítica e irônica sobre um desabafo do ser humano. e é tentador...

besos
 
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Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

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