19 março 2007
  A Nova Onda Feminista
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 11/03/2007

por Vange Leonel


Sou feminista. No Brasil, poucas mulheres o dizem ser. O feminismo é visto com desdém paternalista ou como chatice. Algumas falam "não sou feminista, sou feminina", como se fossem coisas excludentes. No fundo, temem emascular os homens.

Esse preconceito reflete um profundo desconhecimento. A maioria ainda pensa em feminismo como guerra entre os sexos ou afirmação da superioridade feminina. Não é.

O feminismo passou por muitas fases. No final do século 19, a primeira onda feminista lutou por direitos civis, políticos e trabalhistas negados às mulheres. A segunda ergueu-se na metade do século 20, quando se percebeu que o sexismo (discriminação por sexo) expresso nos costumes, na linguagem, nas relações íntimas, familiares e econômicas continuava prejudicando mulheres mesmo após a conquista de direitos legais.

Generalizações do tipo "mulher é assim, homem é assado" (lembrando que características supostamente femininas quase sempre transpiram submissão) prendem homens e mulheres em papéis sexuais, dificultando o desenvolvimento de seus reais potenciais.

Muitos (e muitas) não percebem o sexismo insidioso, às vezes sutil, e julgam o feminismo obsoleto. Enganam-se. O feminismo ajuda a balancear um desequilíbrio primordial que está na raiz de tantos outros: a assimetria de poder entre os sexos.

Hoje, a terceira onda feminista está aí para quem quiser surfá-la. Deslize sobre a crista ou afunde.

© Folha de S.Paulo

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Comments:
Não quero afundar...
A realidade das mulheres, pelo menos aqui no Brasil, ainda é de uma situação tremendamente desigual.
Sabe, tenho visto que há desinformação em todo lugar, até mesmo entre as lésbicas, a coisa que mais detesto ouvir é sobre as diferenças existentes, como se fosse mais certo ser "assim ou assado".
Acredito na luta pelo respeito, seres humanos deveriam tratar-se todos com respeito, deveria bastar, como não basta, temos que lutar para que as mulheres sejam tratadas com dignidade, para que os gays sejam tratados com dignidade, para que os negros sejam tratados com dignidade, etc, etc, etc...
 
oi Saphira, pois é, por tudo que li na mídia a propósito das comemorações do 8 de março, percebi que as pessoas estão muito desinformadas sobre o que é feminismo. Recebi outro dia um email de uma moça dizendo que o feminismo foi ruim porque fez com que as mulheres ficassem reféns de suas carreiras profissionais, tornando-as mais masculinas e afastando-as da intimidsade do lar.

Ora, um dos pilares do feminismo é justamente dar conta da variedade de experiências humanas: há mulheres de todo tipo e com ambições variadas (mulheres do lar, profissionais, profissionais-e-do-lar, lúmpens, anarquistas, artistas, astronautas, lésbicas, trans, etc etc). O importante é ter liberdade para escolher seu caminho sem ter que obedecer a fórmulas/tradições culturais sexistas. beijos.
 
Bacana Vange,
só que, só sabemos que há desinformação pq há informação (sua, minha, de mais um monte, que tá interessada).
O que é bom pq significa que
existe confusão (feminismo e femismo), que por sua vez só existe pq há debate (e não consenso)!
Há um debate sobre feminismo que vem se alastrando sim de uns cinco anos p cá (daria pra ser mais extata?), há maior visibilidade lésbica (e gls, e um gay que ganhou um bbb- audiência br- e ...em outros campos...debate sobre a presença do negro e cotas...)eu vejo luta e talvez o fim da "geração coca-cola" (hope?). Por outro lado, tudo isso, essa luta, sucinta posturas reacionárias cada vez mais acirradas, o que, particularmente, eu acho que são posturas e discursos que podem ser confundidos com desinformação. E neste sentido, a briga por direitos e poder que deve aumentar me provoca angústia...(tipo, aumenta a luta mas a resistência tb)
 
Fá, é isso mesmo. Quanto mais colocamos a cabeça para fora, mostramos a cara, mais resistência vai rolar. É uma questão deação/reação.

Eu vou ainda falar desta terceira onda feminista. É que preciso de tempo, pois a terceira onda é um feixe de várias vertentes: cyberfeministas, feministas essencialistas, pós-modernas, etc etc. Aliás, essa enorme variedade de pontos de vista feministas, essa coexistência em diversidade, o dar-se conta da enorme complexidade da experiência feminina e humana, tudo isso traduz um ponto básico da terceira onda: não há um corpo central de pensamento.
beijos
 
Sabe o que eu acho, Vange? a recusa do verdadeiro feminismo reside em grande parte na ignorância dessas mulheres. O que as faz recusar o feminismo é realmente a forma como foram moldadas erradamente por muitos homens machistas e ignorantes aos conceitos que eles acham certos em sociedade. Elas vêm o mundo sobre um prisma masculino deturpado. Hoje mais do que nunca é imprescindível uma renovação de conceitos e o novo femisimo pode fazer muito por isso, por essa libertação de mentalidades oprimidas desde a antiguidade. Democracia, laicidade e esclarecimento são essenciais nesse desafio que se nos coloca.
Devemos também sempre colocar primeiro a Pessoa à frente dos separatismos que as sociedades atrasadas e patriarcais criaram para distanciar os sexos e fazê-los viver em permanente conflito afim de imporem os seus conceitos de vida obsoletos e imperfeitos.
Continuemos o trabalho que ainda precisa ser feito para mudar mentalidades e tornar o mundo mais harmonioso, tolerante e progressista.
Black Bird
 
ops..no texto queria escrever feminismo e não femismo.....me desculpem.
Black Bird
 
BBird, obrigada pelo comentário. A própósito, me diga: qual a força do feminismo aí em Portugal? O Brasil é um país ainda muito machista e gostaria de saber quel a situação aí em Portugal...
beijos
 
Eu acho que a força do feminismo está um bocado diluída em Portugal, com excepção de alguns meios académicos...Tb aqui mtas mulheres têm vergonha de assumir o feminismo. Outras não o entendem. É certo que já não existe tanto machismo como por exemplo há uns 15, 20 anos atrás, mas ainda existe um sério caminho a percorrer. Caminho que deve ser feito por novas gerações de mulheres, mas tb juntar à sua luta outros aliados que são as pessoas e organizações mais progressistas da sociedade e que tem infuência nos postos decisórios. Acima de tudo devemos sempre combater sempre o conservadorismo e as religiões tradicionais que oprimem a mulher. O machismo é mais forte nas camadas menos esclarecidas da sociedade, eu acho...Uma recente vitória do feminismo e de todos aqueles que querem o avanço das mentalidades foi ter ganho em referendo o Sim à legalização do aborto até às 10 semanas. Mulheres e homens esclarecidos e progressistas aliaram-se e conseguiram derrotar a igreja catolica e restantes forças retrógadas. Foi bom, mas há ainda mt a fazer e além de tudo é necessário saber cuidar e conservar os direitos já obtidos.
Black Bird
 
Educação. Educar em casa, na escola, na vida.

Raízes culturais. São elas que ditam as regras na 'relação de gêneros'.

Dispir-se de pré-conceito. Essa é uma questão que tem de partir da própria mulher. É como tirar a roupa ao invés de esperar que alguém tire pra você...

E, tô com a Vange, escolher! Tem de ser uma escolha cuidar do lar, trabalhar, cuidar do lar e trabalhar.

Educar a mulher. Que fique claro que ela pode 'pensar' diferente do que lhe ensinaram. Agir diferente do que lhe foi imposto. Se ela quiser.

São muitas as mulheres machistas. E espelham em seus filhos a maneira paternalista de ser. E continuam a reclamar do homem...

Há de haver uma relação ondem os dois ganhem. E os dois possam perder. Não dizem que a vida é um jogo? Que possamos ter igualdade pra jogar, mesmo sendo diferentes.

Solange Veiga
 
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Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

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