14 agosto 2006
  Quem tem medo de vizinho gay?
coluna GLS publicada na Revista da Folha em 06/08/2006

por Vange Leonel

No dia 25 de julho, a Folha publicou uma pesquisa feita pela Unesco: 47% dos jovens brasileiros não gostariam de morar ao lado de um vizinho gay. A mesma matéria mostrou outro estudo (da Organização dos Estados Ibero-Americanos para Educação, Ciência e Cultura) sobre homofobia nas escolas, revelando um alto índice de preconceito contra gays e lésbicas nos colégios.

Depois de ler, me perguntei: será que esses jovens não querem um vizinho ou colega gay porque pensam (precipitada e erroneamente) que todo homossexual tem caráter duvidoso? Será que eles imaginam (tortuosamente) que gays e lésbicas representam ameaça de paquera ou assédio?

Se eles pensam assim, são tolos. Basta enxergar o outro lado: há vizinhos heterossexuais amáveis e outros indesejáveis, assim como há colegas de escola héteros legais e outros não muito. Heterossexuais também paqueram e alguns chegam a assediar sexualmente. Aos héteros que paqueram inofensivamente pode-se responder aceitando ou rechaçando o convite, denunciando à polícia os que assediam sexualmente. Idem, em relação aos homossexuais.

O problema é que ninguém repara em gays e lésbicas "bem-comportados". Muitos preferem pensar que só existem bichas e sapatões predadores de heterossexuais e estendem essas características a todos os homossexuais. Esse tipo de generalização, porém, não ocorre com heterossexuais. Quando um hétero pisa na bola, ele é apenas uma pessoa que pisa na bola. Mas, quando um homo faz coisa errada, os preconceituosos dizem que ele faz errado porque é homo. Percebam o viés: um é pessoa, o outro é homo. A verdade é que a orientação sexual não define o caráter de ninguém.

© Folha de S.Paulo
 
Comments:
Já ouvi falar de vários casos de preconceito.Esse negócio de vizinho sempre foi problema para os homossexuais,lembro na década de 80, quando ainda era garota ,tinha uns garotos que subiam na árvore para ver um casal de lésbicas se trocando(eles não respeitavam nem a idade das duas(entre 50,60 anos).Um dia elas descobriram e foram reclamar com os pais dos moleques...a briga foi tão feia que deu polícia e tudo.Moral da história...elas venderam a casa.
OBS¹:As duas foram muito mal tratadas pelo delegado.
OBS²:Esse negócio de vizinho maltratar homossexual já rendeu até música ...lembra daquela música da Zélia Duncan"Os imorais falam de nós, do nosso gosto,nosso encontro ,da nossa voz..."
E você Vange,já teve algum vizinho chato?
 
eu tinha uma vizinha portuguesa muito chata que batia lá em casa as 3 da manhã e dizia: ora as raparigas podem fazer amor do jeito que querem mas não a essa hora porque os vizinhos estão dormindo...
e a gente nem estava transando. aliás, se a gente transasse tanto quanto ela imaginava, teríamos gasto nossos montinhos de vênus...
 
hahaha, Charlotte, isso prova que os vizinhos realmente fantasiam além da conta. Deve ser a mística dos vèus-paredes-muros: nunca se sabe o que rola por baixo/trás deles.

Anônimo, hoje minha vizinhança é OK. Mas já tive vizinhos impertinentes e/ou inconvenientes sim...
 
Vange, acho que rola também o medo de ser influenciado e "mudar de time". Quando eu era pré-adolescente tinha receio de ficar por perto das lésbicas da escola. Eu achava que ou elas tentariam me cantar ou eu talvez me tornasse lésbica. Sei lá, por osmose. Tadinha, tão tolinha. Ainda bem que saquei tudo rapidinho, e desde pré-adulta fiz amizades com homossexuais maravilhosos, que duraram até hoje. Sou hetero, casada, e meus melhores amigos (e amigas) são todos gays. Ah, já tive vizinhos chatíssimos e mal educados. Nenhum era gay.
 
Uma idéia tão simples que as pessoas insistem em fazer tanto barulho. Confusão em torno dos homos é culpa da nossa cultura machista, igreja e mídia manupuladoras, mas isso é claro que não é nehuma novidade, então porque as pessoas ainda seguem esses preconceitos absoletos? (hey, já chegamos no século 21!!) Eu sei como é difícil de uma hora pra outra negar todas as informações que eram dadas na infância, mas um pouco de informação cairia bem, né?
 
andréa e carla, obrigada pela visita.

vou contar uma história da minha infência: quando eu tinha uns 11 anos, a brincadeira na escola era acusar uma menina de ser lésbica e sair correndo atrás dela pra afugentar. Como eu era desenturmada, estranha, ninguém nunca me chamou para participar dessas "perseguições" e nunca fui perseguida. Para falar a verdade, eu nem sabia o que significava a palavra lésbica. Mas achava muito covardes essas perseguições em formação de gangue. Agora, olhando para trás, imagino que as "perseguidoras" estavam inconscientemente desejando beijar, abraçar e esfregar as "perseguidas".
 
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Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

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