11 janeiro 2006
  Fome Zero
Terminei de ler o livro "Libertação Animal", do filósofo Peter Singer. Eu já pressentia que, após sua leitura, poderia retomar meu vegetarianismo, interrompido há uma década. Batata! Voltei a ser vegetariana no primeiro dia do ano de 2006. Singer usa basicamente dois argumentos: contra o especismo e pró-ecológico. Assim como sexismo define a discriminação com base no gênero e racismo, de raça, o especismo significa a discriminação com base na espécie: ora, por que nós, animais humanos, devemos nos achar tão superiores a ponto de fazer sofrer e matar animais para um prazer meramente supérfluo? Sim, porque Singer nos convence por A + B que a proteína animal é absolutamente dispensável para nosso sustento e, por outro lado, sua produção pode significar mais fome e desequilíbrio ecológico no planeta. Saca só a contabilidade na página 187:

"Suponhamos que dispomos de 0,4 hectare de terra fértil. Essa terra poderia ser usada para cultivar uma planta com alto teor protéico, como lentilha ou feijão. Se fizermos isso, obteremos entre 136 e 227 quilogramas de proteína. Podemos, ainda, usar essa mesma quantidade de terra para cultivar algum tipo de alimento para dar a animais; depois, podemos matá-los e comê-los. Acabaremos, então, com cerca de 18 a 20 quilogramas de proteína. É interessante observar que, embora a maioria dos animais converta proteína vegetal em proteína animal de forma mais eficiente que o boi - um porco, por exemplo, precisa de "apenas" 3,6 quilogramas de proteína para produzir 450 gramas de proteína para ser consumida por seres humanos - essa contagem é praticamente eliminada quando consideramos quanto dessa proteína pode ser produzida por hectare, porque o gado pode utilizar fontes protéicas não digeríveis pelos porcos. Portanto, a maioria das estimativas conclui que alimentos de origem vegetal rendem cerca de dez vezes mais proteína por hectare que a carne, embora as estimativas variem e, às vezes. a proporção seja de até vinte por um."

Portanto, em termos ecológicos, as pastagens de gado roubam hectares de floresta para a produção de pouca proteína, se comparada aos hectares que produzem vegetais. E, se o argumento contábil-ecológico foi capaz de me convencer, o do especismo me ganhou de vez. Afinal, sempre julguei os grandes macacos merecedores de maior consideração. Daí a estender esta mesma consideração ao restante das espécies, foi um pulinho.
 
Comments:
hum, vange... talvez meu comentário venha a ser carnívoro por demais, mas... o "especismo" não teria que computar também as lentilhas e os feijões? porque, sim, eu sou bem mais parecido com um porco que com uma soja, mas será que isso diminui minha crueldade sanguinária contra os (as?) adoráveis alfaces?
 
Pedro, seu comentário é super pertinente. Tanto, que o Singer gasta boa parte do livro tentando rebater o argumento que vc expôs. Ele diz que as plantas não sentem dor, e suas considerações éticas dizem respeito aos seres capazes de sentir dor. Mesmo assim, ele não vai tão longe, visto que pisamos em formiguinhas e milhares de bactérias vivem e morrem dentro de nós. Ele não faz objeção quanto a matar animais por necessidade (fome) quando não há outro alimento disponível. É este o limite da ética dele (segundo entendi, ele não vai matar uma mosca por esporte, mas vai matá-la se esta estiver chupando seu sangue). O cara não é fundamentalista e traça limites para o alcançe desta consideração ética não-especista. É impressionante a racionalidade e objetividade com que ele expõe seus argumentos. Ele fica puto mesmo é com a maneira cruel e irracional com que são tratados gado e aves nos criadouros, principalmente em vista do pouco ganho proteico para a humanidade e do desequilíbrio ecológico causado ao meio ambiente.
 
certo, entendi, e acho até que concordo com todos esses itens que ele defender... quer dizer, menos com um, que é o da dor das plantas... isso é uma informação arbitrária, por não conseguirmos nos comparar com os padrões de vida das plantas, não? porque, se planta não sente dor, então acho que eu queria ser uma!, hahaha.
 
hahaha, é verdade, e isso me lembra Stevie Wonder e "The secret life of plants"... mas até este ponto o Singer tenta esclarecer. Ele diz que a dor pode ser percebida através de contorções ou de esquiva. Como a planta não se contorce nem se esquiva, ele imagina que elas não sentem dor (mas ele diz que pode estar errado neste ponto, e aí parte para a argumentação econômico-ecológica que me parece o pilar mais sólido do seu raciocínio - afinal, a floresta amazônica está sendo derrubada aos poucos para abrir pastagens...)
 
pior que as plantas também não têm rosto, pra fazer cara de dor, né? ai, se uma planta falasse, pra poder rebater as opiniões do singer!, hahaha.

na verdade, pensando na derrubada da amazônia, estão matando plantas para matar animais para matar mais plantas para matar mais animais, né?...

stevie wonder, adorado! acho que nunca prestei atenção nas letras desse disco, do que será que ele fala? "the secret life of plants" poderia ser um tema fascinante pra alguma ficção pós-científica, hein?...
 
se minha memória não estiver falhando, acho que o título do LP do Stevie Wonder se refere a um livro homônimo, que diz, sim, que as plantas sentem e precisam que a gente converse com elas.

mas veja bem: eu podo as plantinhas aqui em casa, e elas parecem ficar muito felizes com a poda. Ano retrasado não tive gardênias porque não podei. Mas no ano passado, podei os galhos e apareceram quase duas dezenas de gardênias perfumadas. Lindas. O manjericão e o alecrim, se não colho uns galhinhos regularmente para comer, ficam amarelinhos, tristinhos...

Pedro, acho que eu não tenho bases filosóficas para argumentar tão bem quando o Singer sobre bio-ética (leia o livro, se continuar encafifado). Mas vou terminar minha argumentação colocando para vc uma situação hipotética, bem concreta:

Você está numa fazenda e tem um boi e uma horta de verduras. Você pode se alimentar da horta, com feijões, arroz, alface e tomates, por exemplo, colhendo os frutos e deixando as raízes para que crescam novamente (como minhas plantinhas podadas). Ou você pode pegar um pau e matar o boi (é assim que se mata boi, dando pauladas na cabeça dele), depois abrir seu ventre, tirar as tripas, separar os membros e fritar vários bifes. A minha pergunta é: se vc tiver que fazer com as próprias mãos, o que vai preferir? Você vai se alimentar da horta ou do boi?
 
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Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

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