23 março 2006
  LadyFest Brasil 2006

foto de Cilmara Bedaque (crédito obrigatório)

a garota que está na foto comigo, empunhando uma guitarra, é Elisa Gargiulo, do Dominatrix, banda-fundadora do Riot Grrrl brasileiro (essa foto foi tirada por Cilmara Bedaque antes de uma participação minha num show da banda no ano passado). A Elisa é uma das organizadoras do LadyFest Brasil 2006 que rola no próximo fim de semana aqui em São Paulo, nos dias 24, 25 e 26 de março. O tema deste ano é "Menino ou Menina? Gênero: o machismo torturando nossa identidade". Escrevi na semana passada uma coluna sobre "Gênero & Feminismo" lá no Bolacha Ilustrada e aproveitei para fazer uma mini-entrevista com a Elisa que, além de guitarrista de responsa, feminista aguerrida e pessoa admirável, é minha amigona.

Confira o site do LadyFest com a programação completa.
 
Comments:
vange, como foi o festival?!
 
Pedro, foi muito produtivo. Na abertura, sexta, assisti a alguns vídeos feito por meninas, bem bacanas, fiquei emocionada (sempre fico emocionada quando elas resolvem falar por si, dar voz à sua própria voz).

No sábado participei de um debate com as garotas do grupo "Jovens Feministas" e foi interessante ver que frentes diferentes do do movimento feminista e/ou lésbico (as punks feministas, as lésbicas do MoLeca e do Umas & Outras e ativistas independentes - todas jovens) começam a trocar impressões e tentar estabelecer contato. Foi legal também perceber que estamos fazendo um esforço para aproximar as lesbofeministas com ação mais centrada na cultura das que atuam mais politicamente junto ao poder público. Afinal, tá tudo ligado, né?

Este ano não fui aos shows porque ainda estou de enfermeira cuidando da minha querida, mas queria muito ter ido à oficina das Minas da Rima e ter assistido a umas bandas que ainda não conheço. Mas não deu, tive que selecionar.

Outra oficina que rolou (e que já fui umas 2 vezes e é um trabalho valioso) foi a de "consenso sexual para jovens lésbicas", ministrada pela Elisa e pela Geisa. Em suma, a oficina estimula as meninas a pensarem em que ciscunstâncias há consenso e em que situações existe abuso numa relação sexual/amorosa, porque muitas vezes nem percebemos esse abuso (tanto como abusadoras como vítimas de abuso) e não percebemos como podemos ser machistas e sacanas umas com as outras.

Enfim, achei que esse terceiro LadyFest mostrou uma evolução das cabeças do rock feminista, que deixaram pra trás as frases de efeito e o discurso maniqueísta para agir, efetivamente, no sentido de formar (tomara!) um grande contingente de meninas criadoras, produtoras, potentes, com voz, autoquestionadoras e politicamente responsáveis.
 
Vange, reproduzi essa frase do sociólogo português Boaventura de Souza Santos no blog do Pedro, mas tenho de repetir a dose aqui, porque, além de gostar muito da idéia, confesso que lembrei imediatamente do seu discurso quando eu li:

"Temos direito de ser iguais quando a diferença não inferioriza e direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza".

Me corrija se eu te interpretei mal.
Abs,
Danilo
 
Danilo, acho que a interpretação procede. Aliás, no dia da abertura do LadyFest eu e as organizadoras do evento conversamos muito sobre isso: que a luta feminista não é uma mera questão de "igualdade", e sim uma ênfase nas "particularidades".

Se a pretensão da universalidade é um traço marcante da cultura patriarcalista, a ênfase na particularidade é um dos motores propulsores do feminismo.

É aí que o pensamento feminista se junta a outras correntes do tipo multiculturalista, pós ou meta-modernista, mas não relativista. O relativismo relativiza tanto, que tira das partes a carga de responsabilidade que lhes pertence, sua densidade e sua opacidade.

Não sou relativista, do tipo que diz "se tudo é tão relativo, nada faz sentido". Pelo contrário, penso que, por serem parciais e "não-universais", os saberes adquirem mais peso, responsabilidade, um viés explícito e não mais oculto em sua pretensão universalista. Os saberes, então, são circunscritos, carregados de nuances, parcialidade, opacidade e densidade. É como na frase que vc citou, em que a questão não é um simples embate entre "igualdade" versus "diferença".
 
Eu já considero essa universalidade citada por você uma impossibilidade. Um exemplo: muita gente quis comparar o impacto de maio de 68 com o que os jovens estão fazendo na França, hoje. Para mim, é tolice acreditar que essas manifestações também "mudariam o mundo", porque o mundo se desuniversalizou em termos sociais. Com exceção da miséria, cada vez menos pessoas têm problemas tão genéricamente parecidos.

Cada parte do mundo, cada grupo do mundo, cada gênero, cada espécie, cada uma das coisas têm problemas e "saberes" diferentes, necessidades diferentes.

Ainda é difícil para as pessoas - mesmo para aquelas que acreditam que lutam pela universalidade, pela igualdade e pela tolerância - perceber que a igualdade é a liberdade e que ela é constuída por diferenças paralelas, que, com perdão do pleonasmo, possivelmente nunca se encontrarão, nunca se universalizarão.
 
Vange,só queria pedir uma coisa...bem que vc poderia trocar a palavra "contingente" por "movimento".Esse negócio de "contingência" é coisa de machista,ou seja,vc não precisa ser necessariamente homem para agir como tal(por exem.:minha mãe é extremamente machista)
 
ei, anônimo, vc pode dizer quem vc é? Nossa, eu não sabia que "contingente" era um lance machista... e eu usei a palavra no sentido de "número" e não de "movimento". Vc poderia me explicar por que "contingência" é coisa de machista? Se vc me explicar, eu poderei me corrigir futuramente para ser menos machista nas minhas palavras, tá? Mas eu preciso primeiro entender, por favro, me explique.
 
vange, legal, empolgante o relato! da minha parte, puxa, acho que fico com vontade de fazer uma pequena "confissão"... até este momento, eu ainda não consigo me imaginar indo até lá, ao ladyfest - umas fantasias meio amontoadas, de não estar no meu lugar, ou de não ser bem recebido, ou de me intrometer no que não é da minha conta, sei lá, não sei explicar direito...

ai, esse tal de "anônimo" (que às vezes também assina "anonymous") tá virando a "pessoa" mais "famosa" da blogosfera, né? é tipo um armário ambulante gigante falando "uuuuuh" em todos os blogs...

de todo modo, a colaboração dele(a) me fez querer ir ao aurélio e tentar descobrir o que é "contingente":

[Do lat. contingente.]
Adj. 2 g.
1. Que pode ou não suceder; eventual, incerto: &
2. Que, entre muitos, compete a cada um.
3. Filos. Diz-se das coisas e dos acontecimentos que se concebem, sob qualquer um dos aspectos da sua existência, como podendo ser ou não ser, não trazendo em si a razão da sua existência.[Opõe-se, nesta acepç., a necessário (3). Cf. nesta acepç.: acidental (3) e casual (1).]
4. Lóg. Diz-se de uma proposição cuja verdade ou falsidade só pode ser conhecida pela experiência e, não, pela razão.
5. Lóg. Diz-se de função lógica que ora se converte numa proposição verdadeira, ora numa proposição falsa, conforme os valores assumidos por suas variáveis.

sei lá, não entendi perfeitamente todas as definições, mas a priori nenhuma delas me fez associar com machismo...

e eu adorei a definição 4!!!
 
hahaha, Pedro, eu também adorei a definição 4. Eu leio livros e livros de teoria feminista e as palavras "contingente", "contingencial" e "contingência" são sempre muito usadas, justamente porque condicionam e circunscrevem fatos, verdades e proposições.

mas acho que entendi por que a/o anônimo implicou comigo. Ele/a achou que eu usei o substantivo conforme a definição 9.1 do Houaiss:


substantivo masculino
7. determinação quantitativa; número Ex.: c. populacional
8. a parte ou porção que cabe a cada um numa distribuição, num todo; cota, quinhão Ex.: todos terão seu c. de sacrifícios
9. grupo de pessoas que, dentro de uma coletividade, cumprem determinado fim Ex.: um c. de funcionários atende ao público; um c. de diplomatas encontra-se na ONU
9.1 Rubrica: termo militar.
conjunto de indivíduos designados para executar tarefa ou missão eventual e temporária Ex.: um c. de tropas guarnece a fronteira
10. Rubrica: comércio, economia.
quantidade máxima de um produto que pode ser exportada ou importada por um país num determinado período


puxa, anônimo, juro que não sabia que "contingente" era jargão militar... entendo pouquíssimo de exército. Me conceda o benefício da dúvida e pense que, em minha santa ignorância, usei o substantívo na sua definição mais comum (número 7). Em todo caso, se vc preferir então, em vez de "grande contingente de meninas", leia "um grande número de meninas", pro termo ficar menos belicoso, militar ou machista, ok?

(só uma pergunta: riot grrrls também é um termo machista?)
 
ah, Pedro, na edição do Ladyfest do próximo ano a gente vai junto, tá? Muitos garotos também freqüentam, vc não vai se sentir deslocado não. beijos.
 
oba!
 
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Cantora, compositora, colunista GLS e proto-escritora. Lésbica e feminista. Atualmente assina a coluna GLS da Revista da Folha no jornal Folha de S.Paulo e a coluna "Vange Leonel" no Mix Brasil.

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